Olá,
Resolvi escrever algumas linhas acerca desse grande manifesto mais recente do país. Pessoas foram as ruas - aliás, tem ido. Não há novidade nisso. Desde a nossa redemocratização o processo de maturação foi constituído nas liberdades conquistadas, exercidas à exaustão pelos cidadãos, dados os capítulos mais recentes. Há uma sempre mensagem quando as pessoas se mobilizam e protestam. Há excessos também, as vezes, mas, por mais antipático e criminoso que seja - e é, termina sendo também uma mensagem, não importa.
Ora, comecemos pelo pior dos capítulos mais recentes: ao depredar comércios, indústrias, equipamentos públicos, incorre-se em erro, em desvio da estratégia, desfoca-se o objeto da ação popular. Mas, observem, os meliantes também estão enviando sua mensagem - que carece de análise sociológica profunda. O lado bom da coisa é: o povo conhece seu tamanho nesse processo, só não se agrupa para protestar o tempo todo, mas isso está mudando. Evangélicos, gays e simpatizantes, negros, vítimas da violência - de qualquer natureza, enfim, segmentos se mobilizam e protestam. Cabem várias leituras, inclusive esta, mas nenhuma alcança a essência da coisa, só sublinha uma realidade à ser estudada.
Não há convulsão social que não seja providenciada por algo ou alguém que a provoque. Tomando por base que a indignação da sociedade seja com a forma como a política vem sendo feita e o modus operandi dos governantes em relação a troca entre tributos e políticas públicas, serviços prestados à sociedade - mantenedora de toda essa estrutura do poder no país, vale dizer que o sinal mais recente de descontentamento com tudo isso foi dado quando milhares de pessoas se mobilizaram para peitar interesses partidários e pôr na ordem do dia dos debates nacionais uma lei que visava a moralidade da representatividade política - a Lei da Ficha Limpa.
Vencida essa etapa, a internet consolidou-se de vez no país como instrumento de diálogo livre entre os diferentes, exponencialmente por uso das redes sociais - uma pluralidade que torna difícil encaixar numa só definição. Há muitos equívocos dos profissionais da área. Eu trabalho com isso, modestamente e com pouca estrutura - redefini as tags de monitoramento e usei métricas diferentes buscando a leitura de algumas semanas atrás e vi que era crescente a onda de indignação dos internautas com lastro para mobilizações de grandes proporções. Não foi possível definir cabeças, lideranças específicas, mas setores sim. Porquanto, houvesse no país um trabalho sério e profissional de se auscultar as vozes das redes, muito mais diálogos institucionais estariam acontecendo e soluções em conjunto sendo encontradas, o que talvez diminuísse consideravelmente o fosso que existe entre autoridades governantes e população representada.
Ainda nos capítulos recentes, uma multidão se alinhou a um abaixo-assinado virtual contra o Presidente do Senado, Renam Calheiros; outra multidão fez o mesmo em relação ao Pasto Marco Feliciano a frente da Comissão dos Direitos humanos e Minorias da Câmara, com frentes à favor e contra, assim como muitas outras petições que circulam pelas redes. A revista Veja desta semana, por exemplo, traz uma entrevista com o Nate Silver, que é especialista em análises matemáticas e que usa uma combinação de fatores estatísticos para apontar previamente resultados sobre coisas - que invariavelmente acontecem. É um estudioso, considerado um gênio nos EUA.
Por fim, a sociedade se mobiliza e vai às ruas se manifestar por que talvez seja seu penúltimo recurso para se fazer ouvir, a ante-sala da revolta armada (o que constrange falar, mas deixaria um cenário bem mais beligerante que o atual). Desde a 'primavera árabe' que o povo revisitou sua força pelo mundo, embora as razões tenham sido outras, mas, considerando que onde não há diálogo institui-se uma ditadura, dependendo do ângulo em que se quer enxergas as coisas pode haver semelhança, e o povo reage. Já li que podem ser partidos radicais mais à esquerda tumultuando; já ouvi que podem ser pessoas instigadas ou financiadas pelas grandes nações infiltradas para frear a projeção internacional do país; já soube que os militares avançaram e recuaram numa estratégia militar de conquista da opinião pública para então agir à seu modo, entre várias outras leituras. Respeito todas, mas estou inclinado a discordar.
O meu entendimento é este: Falta de diálogo, principalmente de se ouvir para depois falar - por parte das autoridades governantes. Num país em que se tem que criar leis (Transparência e Acesso à Informação) para que o cidadão acesse documentos públicos, e ainda assim não consegue; que altera e flexibiliza sua lei que visa moralizar a gestão pública e punir maus gestores - a LRF para atender as exigências de uma entidade privada internacional - a FIFA, resta pouco à se falar. O poder emana do povo, constitucionalmente, e é esse poder que o cidadão está exercendo pelas ruas, aos bocados e à sua maneira. É impossível prever como isso tudo acabará, mas é possível conversar. Longe de ter a pretensão de ser preciso na análise dos fatos, esta é uma leitura pessoal para contribuir com o processo de discussão no Brasil.
É o que penso!
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14h16min. - adelsonpimenta@ig.com.br



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